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Dívida do cônjuge pode atingir os meus bens? Regra do Código Civil, exceções e defesa da meação

10 de dez. de 2025
6 min de leitura

Atualizado: há 9 horas

duas alianças sobre boletos

Um bloqueio na conta, a penhora de um bem em nome do casal, a citação numa execução que nunca se viu: a dívida do cônjuge costuma chegar ao outro assim, sem aviso. A lei permite que isso aconteça em algumas situações e proíbe em outras, e a diferença cabe em duas perguntas. A dívida beneficiou a família? E o bem atingido é de quem?


O que o Código Civil diz sobre dívidas do casal?


Qualquer dos cônjuges pode, sem autorização do outro, comprar a crédito o necessário à economia doméstica e tomar empréstimo para isso, e as dívidas contraídas para esses fins obrigam solidariamente ambos. Fora delas, quem decide é o regime de bens.


A autorização está no art. 1.643 do Código Civil, e a solidariedade, no art. 1.644. Economia doméstica é o que mantém a casa e a família funcionando: moradia, alimentação, saúde, educação dos filhos, as contas correntes da vida comum.


Para as demais dívidas, o regime de bens entra em cena. Na comunhão parcial, as dívidas contraídas por um cônjuge na administração dos bens comuns obrigam os bens comuns e os particulares dele, e os do outro na razão do proveito que houver auferido. Já as dívidas anteriores ao casamento e as que vêm de ato ilícito ficam fora da comunhão, salvo se reverteram em proveito do casal. A dívida feita para cuidar de um bem particular, por sua vez, não obriga os bens comuns.


Todas essas regras giram em torno da mesma ideia, e ela é o fio do artigo inteiro: importa menos quem assinou e mais quem aproveitou.


A pergunta que decide o caso não é quem assinou. É quem aproveitou.

O que o STJ decidiu sobre incluir o cônjuge na execução?


Em outubro de 2025, a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, no REsp 2.195.589/GO, rel. min. Nancy Andrighi, por unanimidade, admitiu que o cônjuge do devedor seja incluído no polo passivo de execução por dívida contraída durante o casamento em comunhão parcial. A decisão parte dos arts. 1.643 e 1.644: para as despesas da vida comum há presunção absoluta de consentimento recíproco, e ambos respondem, independentemente de quem contraiu a despesa.


Lida com cuidado, a decisão é menos ampla do que a manchete sugere. Ela não autoriza a conclusão de que "casou, a dívida é dos dois"; autoriza a inclusão e transfere ao cônjuge incluído o ônus de afastar o proveito familiar, que ele pode exercer na própria execução ou em embargos.


A ementa é expressa ao dizer que cabe ao cônjuge discutir que a dívida não reverteu em proveito da entidade familiar ou que determinados bens dele não se comunicaram. A defesa, com isso, começa na prova, e não na tese, e quem chega ao processo sem extratos e sem contratos chega desarmado.



Quando a dívida do cônjuge não alcança a meação?


Quatro situações concentram a maior parte das defesas que funcionam, e elas se complementam.


A primeira é a dívida que não beneficiou a família. Jogo, apostas, viagens pessoais, investimento de risco feito sem o outro, empréstimo para ajudar um terceiro. Extratos, contratos e o histórico da relação mostram para onde o dinheiro foi, e a presunção do art. 1.644 cede diante dessa prova.


A segunda é a dívida anterior ao casamento ou nascida de ato ilícito. Nesses casos, os bens comuns só respondem se houver prova de que o casal aproveitou. Na execução fiscal, a Súmula 251 do STJ diz isso com todas as letras: a meação só responde pelo ato ilícito quando o credor provar que o enriquecimento dele resultante aproveitou ao casal.


A terceira é o bem particular. O que o cônjuge não devedor já tinha antes do casamento, ou recebeu por herança ou doação, não se comunica na comunhão parcial e não responde por dívida do outro.


A quarta é o ato que exigia outorga e não a teve. Fiança, aval, alienação de imóvel e doação de bens comuns exigem autorização do outro cônjuge, salvo no regime da separação absoluta, conforme o art. 1.647 do Código Civil. A Súmula 332 do STJ fecha a questão para a fiança: prestada sem autorização de um dos cônjuges, a garantia é totalmente ineficaz, e o cônjuge que não autorizou pode pedir a invalidação do ato.


Fiança e aval sem outorga não atingem a meação. Atingem, no máximo, a parte de quem assinou, e mesmo isso se discute.

Conta bloqueada ou bem penhorado: como reagir?


O primeiro passo é saber em que qualidade o cônjuge foi atingido, porque o instrumento muda. Se ele não é parte na execução e a penhora caiu sobre bem do casal, o caminho é o embargo de terceiro para defesa da meação, que a lei reserva expressamente ao cônjuge ou companheiro e que a Súmula 134 do STJ admite mesmo depois da intimação da penhora. Se ele foi incluído no polo passivo, a defesa corre dentro da execução, com a prova de que a dívida não teve proveito familiar.


Alguns detalhes do processo protegem a meação por si sós. Na penhora de bem indivisível, a parte do cônjuge alheio à execução recai sobre o produto da venda, ele tem preferência na arrematação e o bem não pode ser vendido por preço que não garanta a quota-parte dele sobre o valor da avaliação.


A Terceira Turma do STJ reforçou esse ponto em setembro de 2025, no REsp 2.180.611/DF, rel. min. Nancy Andrighi: a quota-parte do cônjuge não executado se calcula sobre o valor da avaliação mesmo quando ele exerce a preferência e arremata por menos. Na penhora de imóvel, o cônjuge do executado tem de ser intimado, salvo no regime da separação absoluta, e a falta dessa intimação vicia o ato.


O bloqueio de contas corre em outro relógio. Tornados indisponíveis os valores, o executado tem cinco dias para provar que as quantias são impenhoráveis ou que o bloqueio foi excessivo, e a conta do cônjuge não devedor entra nessa discussão; o passo a passo está em penhora online pelo Sisbajud.


Quando o credor descobre bens transferidos entre os cônjuges depois da dívida, a alegação seguinte costuma ser fraude à execução, e a data da transferência passa a ser o centro do caso.


Antes de assinar acordo ou reconhecer a dívida como sua, separe três coisas: o que é seu, o que é comum e o que a dívida pagou.

E na união estável?


As regras da comunhão parcial se aplicam à união estável, salvo contrato escrito entre os companheiros, conforme o art. 1.725 do Código Civil. A diferença prática está na prova: sem registro, o credor precisa demonstrar a união para alcançar a meação, e o companheiro precisa demonstrá-la para defendê-la. O contrato de convivência, com regime de bens definido, resolve os dois lados de uma vez.


Cada um desses prazos é curto, e o primeiro ato do cônjuge atingido tende a definir o resto do caso: reconhecer a dívida num acordo, ou deixar passar os cinco dias do bloqueio, fecha caminhos que a lei deixava abertos. Uma avaliação com a equipe de processo civil do Manassés Lopes Advogados, a partir da intimação, dos extratos e do regime de bens, mostra se o cônjuge é parte ou terceiro na execução e qual defesa cabe; o contato começa pelo manasseslopes.com.


Perguntas frequentes


Dívida do cônjuge pode atingir os meus bens?

Pode, quando a dívida foi contraída para a economia doméstica ou reverteu em proveito da família, e o STJ presume esse proveito nas dívidas da constância do casamento em comunhão parcial. A presunção cai com prova de que a dívida foi pessoal, anterior ao casamento ou de ato ilícito sem benefício do casal.


O que é meação?

É a metade dos bens comuns que pertence a cada cônjuge nos regimes de comunhão. Ela responde pelas dívidas comuns e, em regra, não responde pelas dívidas pessoais do outro.


Posso perder a casa por dívida do meu marido ou da minha esposa?

O imóvel residencial do casal costuma ser bem de família e impenhorável, salvo as exceções legais, como a fiança em locação e a dívida do próprio imóvel. Fora do bem de família, a penhora de imóvel do casal exige a intimação do cônjuge, que pode defender a meação por embargos de terceiro.


Fiança assinada sem a minha autorização vale?

Não. Salvo no regime da separação absoluta de bens, a fiança e o aval exigem outorga do outro cônjuge, e a fiança prestada sem ela é totalmente ineficaz, conforme a Súmula 332 do STJ.


Quanto tempo tenho para reagir a um bloqueio?

Depende do ato. Os embargos de terceiro cabem, na execução, até cinco dias depois da adjudicação, da alienação ou da arrematação, e sempre antes da assinatura da carta. Já a impugnação ao bloqueio de valores impenhoráveis tem prazo de cinco dias da intimação. O caminho certo depende de o cônjuge ser parte ou terceiro na execução.



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